8.5.12

célio cupido diante de peitos abertos


no outro dia, célio cupido lavava a loiça e começou a agrupar em pares as coisas semelhantes como se houvesse espaço para caras metades de objectos. pareceu-lhe tudo melhor e fez o mesmo com a cor das molas, enquanto estendia um cesto de roupa.
depois viu gente a apaixonar-se porque lhes via tremerem as mãos enquanto transacionavam papéis de assuntos relevantes. havia até quem tremesse os lábios quando se preparava para dizer algo menos ortodoxo. criou-se uma espécie de angústia e o aqui e agora abateu-se sobre os homens.
dias mais tarde, havia flores e cartas por aí. suspenderam-se os conflitos armados da intimidade. havia acrobacias na rua para saltar para os colos dos parceiros. e beijos mais demorados que os do senhor doisneau. sobretudo, havia disponibilidade e corações delgados.
mais tarde, ainda a madrugada arrancava da calçada, quando gente-só tomava o dia e caminhos nas suas vidas presentes, chuvosas e muitas vezes chorosas nessa intimidade desocupada. porque nunca se falava de amor de improviso.
inventaram-se cursos de sedução, de paciência e de tolerância. cães, filhos e flores. tudo planeado para um amor de repente


e célio cupido gritou, pontapés às molas, panos da loiça pelo ar, documentos amachucados, serviços mal amanhados, ruas sem sentido! que é feito dos instantes que alinhavados uns aos outros, acrescentam formigueiros à alma e corações ao alto? e cosê-los à máquina do tempo, e serem nossos e para sempre?



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