arranjou trabalho na cidade mas casa nos arredores. por essa razão, faz todos os dias meia hora de caminho, ora em carris ora em corrida e alguns encontrões. o trabalho não o convence mas cansa-o, de maneira que chegado a casa não tem corpo para mais nada a não ser esticar as pernas, engolir a sopa já morna e dormir. os dias em que tem folga diferem no tempo que lhe resta para maldizer tudo o resto que não seja o pingo doce sem a música, o vizinho do lado que nunca lhe faltou com arroz carolino e farinha daquela com fermento ou o conta-me como foi. o que sobra daqui não está como devia, e palavra que não há direito. quinze euros de quinze em quinze dias para deixar isso bem claro, em telefonemas aos amigos, a caminho de casa entre golos de poeira e queixas entrecortadas. fatigadas as razões, às nove e cinquenta já está na cama. às nove e cinquenta já-tem de estar na cama. é que atender todos os dias telefones e feitios, resseca-lhe a alma e entorpeça-lhe a vida. e contra isso ele tem de estar fresco e de peito feito,
caso contrário o sistema arruma com ele
e trespassa o fato de dois meses a outro que não se importe.

Olhar arguto e palavra certa...
ResponderEliminarGrande post.
PZ
(Já escrevi comentários mais inteligentes e sei que não tem nada a ver com este post, mas tinha que dizer que adoro isto tudo. Não sei como é que só agora conheci o blog, mas ainda bem que conheci.)
ResponderEliminarcorada de todo.
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